A vida em atos
Ato I
Parte1/2
Sonho
Entra pela janela do quarto um leve feixe de luz que anuncia a chegada do sol. É manhã, mas ela dorme. Esconde-se daquele feixe que pincela seus cabelos ao som de um Blues emocionado. É o medo de acordar que a faz dormir e sonhar.
Eu construí uma casa só minha, mas os anos passaram e os sonhos escureceram os olhos. Era saudade. Eu tinha uma vida e uma garrafa, disse o velho, mas nunca soube o que fazer com ambas. Era minha vida que deveria ter sido lançada ao mar, e não a garrafa. A garrafa nunca voltou, mas minha vida no mesmo lugar ficou, para sempre. Eu teria sido um navegante, um argonauta em busca do Vale de Ouro, seria destemido e heróico, o exército de um homem só. Seria a fé encarnada em versos pomposos e vermelhos, mas cedi meu futuro a uma garrafa que não há mais de voltar, dizia ele em lamúria. Levei uma vida espúria, em preto e branco, sem versos nem flores, porém hoje volto a contemplar o mar. O velho jogou-se nas águas transformando-se numa pequena garrafa que para longe se foi.
Ela acordou ao ver no sonho a garrafa navegar. Com um sopro de vida e sem mais medo de errar. Não era tarde, ainda havia tempo de ver o mar e amar aquele cheiro que os sonhos seus tanto denunciavam serem reais, mas era sonho, o que ele poderia saber demais? Eram letras soltas, mas ali, na areia, era tempo de falar, de escrever suas próprias palavras, de fazer o que tivesse de ser feito para nunca deixar sua vida passar. Para ficar! E não mais dormir de dia, enquanto houvesse luz e houvesse alegria e tantos portos para se aportar. Foi contra tudo e contra todos, contra os muros e os tolos, os insanos, os tronos, reis e rainhas que lhe atormentavam a alma e afrontavam sua gana pela procura de algo que gritasse como uma paixão de vidas passadas, na certeza de um amanhã azul, tão repleto de feixes de luz e vento-prado, e dúvidas somadas a respostas sem mira.
A coragem saltou-lhe o peito, tomando a forma de uma Nau que a levaria na direção dos ventos, tempestades, emboscadas de paixões e realidades, mas nunca à verdade que ela tanto almejava alcançar, pois se deu conta que era nos sonhos que via o errado, o certo e o durante, o instante que tanto precisava segurar. Mas aqueles momentos nunca voltaram.

1 Comentários:
éh, eu tava na Cabíria quando vc passou o blog pra ela e eu gosto de blogs e fiquei curiosa :D
Também gosto de sonhos. E o que eles dizem. Porque na verdade eles dizem muito mesmo. É só prestar atenção.
muito boa essa primeira parte :D
bjukas
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