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quarta-feira, 30 de julho de 2008

Trabalhador




Trabalhador

Quem sabe o que é sossego
Depois de um dia de trabalho
Numa mina abandonada
Ou numa rua sem asfalto

E eu não disse adeus
Nem pra você nem pra ninguém
Mas tudo bem
Eu volto logo pra ti ver
Só pra ver se ainda é você

E quem disse que é fácil
Deixar tudo pra trás
Só pra dizer "eu consegui"
E “nunca mais”
Vou andando assim
Olhando tudo
E todo mundo
da cabeça aos pés
Tentando abraçar quem passa com o olhar
e quem me olha?

Nem vem, tô de saída
Já troquei de roupa
Já paguei as contas
E tranquei a porta

E se eu não me perder nas nuvens
Eu volto pro jantar

A vida em atos

Ato I
Parte1/2

Sonho

Entra pela janela do quarto um leve feixe de luz que anuncia a chegada do sol. É manhã, mas ela dorme. Esconde-se daquele feixe que pincela seus cabelos ao som de um Blues emocionado. É o medo de acordar que a faz dormir e sonhar.
Eu construí uma casa só minha, mas os anos passaram e os sonhos escureceram os olhos. Era saudade. Eu tinha uma vida e uma garrafa, disse o velho, mas nunca soube o que fazer com ambas. Era minha vida que deveria ter sido lançada ao mar, e não a garrafa. A garrafa nunca voltou, mas minha vida no mesmo lugar ficou, para sempre. Eu teria sido um navegante, um argonauta em busca do Vale de Ouro, seria destemido e heróico, o exército de um homem só. Seria a fé encarnada em versos pomposos e vermelhos, mas cedi meu futuro a uma garrafa que não há mais de voltar, dizia ele em lamúria. Levei uma vida espúria, em preto e branco, sem versos nem flores, porém hoje volto a contemplar o mar. O velho jogou-se nas águas transformando-se numa pequena garrafa que para longe se foi.

Ela acordou ao ver no sonho a garrafa navegar. Com um sopro de vida e sem mais medo de errar. Não era tarde, ainda havia tempo de ver o mar e amar aquele cheiro que os sonhos seus tanto denunciavam serem reais, mas era sonho, o que ele poderia saber demais? Eram letras soltas, mas ali, na areia, era tempo de falar, de escrever suas próprias palavras, de fazer o que tivesse de ser feito para nunca deixar sua vida passar. Para ficar! E não mais dormir de dia, enquanto houvesse luz e houvesse alegria e tantos portos para se aportar. Foi contra tudo e contra todos, contra os muros e os tolos, os insanos, os tronos, reis e rainhas que lhe atormentavam a alma e afrontavam sua gana pela procura de algo que gritasse como uma paixão de vidas passadas, na certeza de um amanhã azul, tão repleto de feixes de luz e vento-prado, e dúvidas somadas a respostas sem mira.

A coragem saltou-lhe o peito, tomando a forma de uma Nau que a levaria na direção dos ventos, tempestades, emboscadas de paixões e realidades, mas nunca à verdade que ela tanto almejava alcançar, pois se deu conta que era nos sonhos que via o errado, o certo e o durante, o instante que tanto precisava segurar. Mas aqueles momentos nunca voltaram.